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ESFIR CHUB

Atualizado: 9 de fev.

Quando é necessário nomear os pioneiros do documentário, que abriram novos caminhos na cinematografia, dominaram sua nova área até então desconhecida e influenciaram a prática criativa de muitos mestres progressistas do cinema em nosso país e no exterior, primeiro pronunciamos os nomes de Dziga Viértov e Esfir Chub.

Ilia Vaisfeld



No período em que Esfir Chub viveu, de 1894 a 1959, sua terra natal sofreu fortes convulsões sociais, políticas e econômicas, passando de Império Russo a União Soviética. A trajetória de Chub sofreu o impacto das transformações promovidas por governantes com visões de mundo e desempenhos radicalmente distintos: de Nicolau II a Lênin, deste a Stalin e, por fim, a Khruschov. Acrescente-se a este cenário, ainda, a violência de três guerras sangrentas e devastadoras. Essas passagens bruscas, de governos e de arbitrariedades, foram determinantes para que Esfir Chub vivesse transições radicais, tanto na vida pessoal quanto em sua profissão.



- Esfir Chub em sequência do filme O homem com a Câmera, de Dziga Viértov, 1929. -



Tendo realizado a formação básica e universitária em instituições de ensino destinadas a mulheres e, portanto, convivido da infância à adolescência predominantemente com mulheres, tão logo concluiu os estudos universitários, lançou-se em um campo de trabalho majoritariamente masculino: o cinema. E, como se isso não bastasse, destacou-se, ao lado de Dziga Viértov, como a grande inovadora do gênero documentário. Esfir Chub demonstrou ser inigualável quanto à competência técnica e potencial criativo para realizar intervenções semânticas nas mais diversas narrativas cinematográficas. Figura proeminente do construtivismo russo, colaboradora diligente do Grupo LEF (Frente de esquerda das artes)[1], integrante do grupo Oktiabr[2] (Outubro) foi o último dos grupos independentes de artistas criados na Rússia, em 1928, do qual também participaram Aleksandr Rodtchenko, Varvara Stepânova, Lasar Lissitzky, Aleksei Gan, Serguei Eisenstein, dentre outros, e outros profissionais não soviéticos como Diego Rivera e Hannes Meyer. As atividades do Oktiabr e de todos os outros grupos independentes cessaram em 1932, quando o governo stalinista proibiu a existência de qualquer agrupamento livre, determinando que as atividades de todos os artistas soviéticos ficavam, desde esta data, sob o controle do estado.e relevante figura do cinema vanguardista soviético (anos 1920, na Rússia), Chub realizou um trabalho tão original que, ao seu tempo, sequer foi compreendida como autora de seu trabalho, o que valeu que ninguém menos que Vladímir Maiakóvski a defendesse pública e enfaticamente (LEYDA, 1983, p. 230). E a epígrafe acima, escrita em 1959 por um prestigiado crítico de cinema soviético e russo, professor, roteirista e editor, Ilia Vaisfeld, atesta o reconhecimento do meio cinematográfico soviético para com as conquistas de Esfir Chub, tanto no âmbito da linguagem quanto no da organização, recuperação e preservação de filmes. Sua biografia está enlaçada à história do cinema russo e soviético e à história do cinema mundial, de forma absoluta.


No que diz respeito à linguagem cinematográfica o valor do trabalho de Chub é incalculável: sem a gramática fílmica por ela concebida e desenvolvida não teríamos obras que inauguraram uma nova estética no cinema com autorias diversas: Alan Resnais, Chris Marker, Andrei Tarkóvski, Harun Farocki e Aleksandr Sokúrov, apenas para citar alguns dos que trabalharam com “filmes de arquivo”, compilando-os, embasados nos procedimentos cinematográficos criados por Chub.


Seus filmes de maior destaque são: A queda da Dinastia Románov (Padienie dinasti Romanovikh, 1927), O Grande Caminho (Viéliki Put, 1927), A Rússia de Nikolai II e Liev Tolstói (Rossia Nikolaia II e Liev Tolstói, 1928), Hoje (Cegodnia,1930) e Espanha (Ispania, 1939). Fragmentos deste último constam do filme O Espelho (Zerkalo, 1974) de Andrei Tarkóvski.



- Fragmento do filme Espanha, Esfir Chub, 1939 (utilizado e colorizado por Tarkóvski em seu filme O Espelho, 1975) -


O caminho percorrido por Esfir Chub é inseparável tanto do contexto histórico russo e soviético do período em que viveu quanto dos conceitos de arte e cinema que nortearam a produção revolucionária que ela experienciou, registrou e teorizou. Por outro lado, seu legado é pouco conhecido no Ocidente e ainda menos nos países de língua portuguesa.



 

[1] O programa do grupo LEF se alinhava aos princípios do construtivismo e tinha a missão de discutir e promover a revolução nas artes por meio da publicação da revista LEF editada por Vladímir Maiakóvski e Osip Brik e, depois também por Serguei Tretiakóv. [2] O grupo Oktiabr foi o último dos grupos independentes de artistas criados na Rússia, em 1928, do qual também participaram Aleksandr Rodtchenko, Varvara Stepanova, Lasar Lissitzky, Aleksei Gan, Serguei Eisenstein, dentre outros, e outros profissionais não soviéticos como Diego Rivera e Hannes Meyer. As atividades do Oktiabr e de todos os outros grupos independentes cessaram em 1932, quando o governo stalinista proibiu a existência de qualquer agrupamento livre, determinando que as atividades de todos os artistas soviéticos ficavam, desde esta data, sob o controle do estado.



LEIA MAIS em JALLAGEAS, Neide. "Notas Introdutórias sobre Esfir Chub: soviética, revolucionária e mestra dos mestres do cinema". In HOLANDA, Karla (org.). Mulheres de Cinema. Rio de Janeiro: Numa, 2019.


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