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ESFIR CHUB (3)

A criação de uma cinemateca



O empenho de Chub para analisar e reconfigurar narrativas de filmes, possibilitou a ela um grande aprofundamento técnico e teórico sobre a montagem e ensejou sua aproximação dos experimentos de Liév Kulechóv, Dziga Viértov e Ielizaveta Svílova. E quando, em 1926 recebe autorização do Sovkino para realizar um filme celebrando os dez anos da Revolução de Fevereiro de 1917, começa intensa busca do paradeiro dos filmes realizados no período imperial. Tratando-se do início dos anos 1920, ainda não existiam arquivos organizados e Chub, mobilizada para trabalhar com filmes pré-revolucionários, foi a primeira a perceber a importância da conservação e criação de uma cinemateca (CHUB, 1972, p. 247).



--- Esfir Chub, c. 1930, autor desconhecido ---


Desse esforço resulta, além da descoberta de filmes até então tidos como perdidos, o exame, a seleção, catalogação e restauro de aproximadamente 5.200 metros de filmes, entre negativos e positivos (CHUB, 1972, p. 247), até o final de 1927 quando realiza A queda da Dinastia Románov (Padienie dinasti Romanovikh) e, a seguir, O Grande Caminho (Viéliki Put, 1927) e, no ano seguinte, A Rússia de Nikolai II e Liev Tolstói (Rossia Nikolaia II e Liev Tolstói, 1928). Esses três filmes, conhecidos como Trilogia Silenciosa, foram fruto de sua aguda observação e interpretação inovadora do conjunto de cinejornais, com registros de fatos que desenhavam o trágico fim do império russo e marcam o surgimento do filme de compilação.

Chub não pararia mais, realizando documentários sobre a eletrificação da Rússia, sobre a construção dos trens metropolitanos em Moscou, sobre a Turquia e, em 1939, o delicado e pungente Espanha (Ispania), uma elegia ao povo espanhol, atravessado pela dor da separação familiar, deflagrada pela guerra civil. Para esses filmes, passou a dirigir o trabalho de cinegrafistas soviéticos que viriam a ter renome internacional, como Roman Karmen.



--- Páginas do livro Minha Vida é o Cinema, de Esfir Chub, capítulo sobre o filme Espanha ---


Com sua grande expertise, não poderia ficar fora do ensino de jovens estudantes de cinema. Entre a década de 1930 até o final dos anos 1950, Chub coordenou os cursos de montagem, junto a Serguei Eisenstein, na VGIK, primeira faculdade de cinema do mundo, fundada em 1919.

Além das atividades de ensino e de direção, passou também a coordenar o Estúdio Central de Documentário em Moscou durante dez anos, de 1943 a 1953, e durante todo esse tempo escreveu e publicou em diversos periódicos.

Nos últimos anos de sua vida Chub preparou um livro autobiográfico no qual esclarece o seu processo de trabalho e suas motivações. Este livro teve duas edições, uma em 1959, ano de sua morte, e outra em 1972, revisado, ampliado com a introdução de textos literários, teóricos e epistolares, com notas de sua única filha, Ana Konopliova. Seu legado traz ainda a história bela e trágica de seu relacionamento com Aleksei Gan, um dos maiores teóricos do construtivismo perseguido, feito prisioneiro e morto nos campos de prisioneiros soviéticos, uma narrativa que permanece inédita até os dias de hoje, inclusive na Rússia.

Minha vida é o cinema, título que Chub escolheu para seu livro, é uma obra preciosa, pois sua vida pessoal e muitos detalhes das atividades profissionais que exerceu, vinculam-se a um período dos mais férteis e produtivos para as artes e o cinema, no escopo mundial, ao mesmo tempo que foi um período que comprometeu muitas das vidas daqueles e daquelas que exercitavam a massa crítica, cujo fim e destino, até hoje, permanece uma incógnita. O caso mais emblemático foi o do poeta Vladímir Maiakóvski, suicidado em 1930. O poeta foi um dos melhores amigos e incentivadores de Chub.



--- Página do livro Minha Vida é o Cinema, de Esfir Chub, capítulo "Vladímir Maiakóvski" ---


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LEIA MAIS em JALLAGEAS, Neide. "Notas Introdutórias sobre Esfir Chub: soviética, revolucionária e mestra dos mestres do cinema". In HOLANDA, Karla (org.). Mulheres de Cinema. Rio de Janeiro: Numa, 2019.


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